Machado de Assis · Clássicos da literatura brasileira
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O diário do conselheiro Aires, diplomata aposentado, entre 1888 e 1889. Último romance de Machado, de 1908.
9 de Janeiro. Ora bem, faz hoje um anno que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: «Vae vassouras! vae espanadores!» Costumo ouvil-o outras manhãs, mas desta vez trouxe-me á memória o dia do desembarque, quando cheguei apozentado á minha terra, ao meu Cattete, á minha lingua. Era o mesmo que ouvi ha um anno, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.
Durante os meus trinta e tantos annos de diplomacia algumas vezes vim ao Brazil, com licença. O mais do tempo vivi fóra, em varias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram cousas e pessoas de longe, diversões, paizagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vae colado:
Domínio público: o autor faleceu em 1908, há mais de 70 anos (Lei 9.610/98, art. 41). Texto da edição digitalizada pelo Projeto Gutenberg.